A idéia era sair de San Diego e ir direto para o “Little Inn By The Bay” em Newport Beach, mas ao invés de pegar a estrada o Tom decidiu guiar pelas avenidas que contornavam a costa e como não tínhamos hora pra chegar, poderíamos curtir a tarde que ia caindo num ritmo tranqüilo e de cor avermelhada.
Restaurantes, casas, postes vão se acendendo e os últimos e mais fissurados já saíram da água e estão se trocando nos estacionamentos que acomodam os carros dos surfistas locais. Entre um semáforo e outro vamos conversando sobre os mais variados assuntos, rindo, discutindo e enquanto um troca a música que dá o tom para a barca o outro puxa a fita das pranchas amarradas ao teto do carro para tentar parar o zumbido pertinente. Logo o assunto morre e cada um foge para sua janela entrando no próprio mundo e viaja pra longe assistindo a paisagem que passa a sessenta quilômetros por hora.
De repente um grito que vem do banco do passageiro me desperta daqueles pensamentos como se eu fosse acordado por uma sirene de incêndio. –“Espera aí, espera aí, volta!”
Virei a cabeça pra onde o Lique apontava e vi uma vitrine de uma loja enorme exibindo as últimas novidades das maiores marcas de surfe do mundo. Mais uma das megastores de surfe californianas, tentação irresistível. Pegamos o retorno no próximo quarteirão e logo estávamos no sentido contrário indo direto para o estacionamento.
Quando estávamos quase chegando naquela “Casas Bahia” dos sonhos uma casinha de muros brancos e portas abertas no quarteirão anterior nos chamou a atenção. Logo a frente do conversível (mais velho que eu) que estava estacionado na calçada, um letreiro de madeira dizia: “Mitch’s Surfshop”.
Além do nome, o único sinal de que aquilo se tratava de um estabelecimento comercial de surfe eram as roupas de borracha usadas que estavam em liquidação e estavam penduradas do lado de fora da casa.
Foi unânime a decisão de encostar o carro e descobrir o que havia naquele lugar tão aconchegante e que parecia respirar surfe.
Na entrada uma loirinha de uns dezoito anos pendurava algumas camisetas de volta no lugar enquanto o que parecia ser seu irmão mais velho nos dava as boas-vindas de trás do balcão.
Ao percorrer o pequeno espaço da loja em que ficavam a maioria dos produtos, percebemos que éramos os únicos clientes na loja e nós quatro já quase lotávamos o lugar somados aqueles dois funcionários que começavam a prestar a tenção no nosso estranho idioma. Enquanto eu olhava alguns leashes, Tom e Diogo piravam nas camisetas que estavam dobradas sobre um expositor de madeira. Sai da sessão de equipamentos pra checar a pilha de filmes de surfe que estava no balcão e enquanto ia procurando algum lançamento que ainda não assisti, ouço o Lique me chamando lá do fundo da loja.
-“Juniooor, chega aqui vem ver isso!”
Andei alguns metros e fui de encontro ao chamado que vinha de um cômodo escondido no fundo da loja. Entrei numa sala colorida, mas não pela cor das paredes, e sim pelas pranchas novinhas de todas as cores que preenchiam todo aquele espaço dando um perfume nostálgico de resina fresca ao lugar.
Todos os tamanhos, cores, número de quilhas e acabamentos que eu podia imaginar estavam ali; bonzers, longboards, biquilhas, quadriquilhas, fishes, monoquilhas, simmons, com canaletas, laminadas, rabetas swallow, round, squash, tinha tudo e mais um pouco.
Foi aí que um moleque de mais ou menos dezesseis anos apareceu do fundo da loja e nos disse com um sorriso no canto da boca: “Yeah those guys next door have all the regular stuff, we’ve got the good stuff!”
Devia ser o irmão mais novo e o terceiro funcionário da loja nos dizendo em poucas palavras tudo que aquela lojinha siginificava.
Fui passando por cada rack e puxando com cuidado os modelos que mais me chamavam atenção, curtindo cada curva daquelas esculturas de poliuretano e fibra de vidro. Christenson, Donald Takayama, Campbell Bros, Skip Frye e até alguns shapes do Joel Tudor estavam ali lado a lado esperando o dia de entrar na água.
Nem vimos o tempo passar enquanto vibrávamos a cada nova descoberta, curtindo a textura e as linhas que cada uma daquelas pranchas exibiam, imaginando como seria ter um daqueles shapes embaixo do pé.
Só saímos quando já tínhamos visto todos os modelos duas vezes e mesmo assim não consegui eleger a melhor de todas.
Diogo e Tom levaram algumas camisetas para o balcão enquanto eu pagava por um leash e o Lique passava o cartão de crédito para pagar mais um boné. (Ninguém tinha mil dólares pra gastar numa daquelas pranchas, quem sabe na próxima.)
O irmão mais velho e gerente da loja que nos entregava o troco estava empolgado falando sobre o próximo swell. Queria saber quanto tempo ficaríamos na Califórnia e de que parte parte do Brasil viemos, mostrando uma simpatia que poucos americanos costumam ter ele continuou puxando conversa até desejar-nos boa sorte e enfim nos despedimos.
Entramos de volta no nosso carro e percebemos que a noite já escurecia toda a cidade e ainda tínhamos um bom caminho pela frente. Pegamos a avenida novamente e só nos demos conta de que não havíamos entrado naquela loja gigante que primeiramente nos chamou a atenção, quando paramos no sinal ao lado dela. Ninguém se pronunciou dessa vez e seguimos direto para nosso próximo destino.
Nossa viagem pela Califórnia durou cerca de dez dias e conhecemos muitos lugares interessantes, mas no final da trip ao recordar o que mais me marcou sobre o espírito do surfe californiano foi essa experiência naquela pacata surf shop. Dizem que se você entra numa loja e não vê nenhuma foto do pico local quebrando clássico, alguma coisa está errada, e posso dizer que isso é verdade.
Mesmo na Califórnia onde tradição e modernidade se encontram todos os dias, as pessoas guardam um respeito enorme pelo estilo de vida que levam e que herdaram de gerações anteriores. Vi o pôr-do-sol em San Onofre ao lado de uma família que havia acabado de sair da água e bati braço no crowd de Huntington Beach. Mas em qualquer desses lugares pude sentir a verdade, honestidade e respeito com que o surfe é tratado.
Você pode ter a maior loja do mundo, fazer rios de dinheiro e achar que esta vendendo o “lifestyle” do surfe para o mundo inteiro, mas surfe não cabe em nenhum saco plástico, não se imprime em etiqueta e não se compra no supermercado.
Por mais que você tente, por melhor que você seja e por maior que seja o saldo na sua conta bancária, nunca irá conseguir colocar água salgada na veia e muito menos entender o que é o nosso estilo de vida.
Infelizemente no nosso país alguns dos que estão envolvidos no mercado não trazem essas qualidades e sugam como parasitas os recursos do esporte buscando apenas lucratividade, sem retribuir de nenhuma forma o que conseguem as custas dessa arte.
Mas aos que continuam com o coração no lugar certo e mantém o respeito e honestidade no que fazem, fica aqui minha sincera admiração e meu humilde agradecimento.
Espero que esse texto seja um pequeno suspiro de renovação para continuar na luta assim como essa pequena viagem foi pra mim.